domingo, 21 de novembro de 2021

 VENTUROSA de sonhar-te,
à minha sombra me deito.
(Teu rosto, por toda parte,
mas, amor, só no meu peito!)

– Barqueiro, que céu tão leve!
Barqueiro, que mar parado!
Barqueiro, que enigma breve,
o sonho de ter amado!

Em barca de nuvem sigo:
e o que vou pagando ao vento
para lever-te comigo
é suspiro e pensamento.

– Barqueiro, que doce instante!
Barqueiro, que instante imenso,
não do amado nem do amante:
mas de amar o amor que penso!


*Cecília Meireles*
Em “Obra Poética – Volume Único (Canções)”, Rio de Janeiro,
Nova Aguilar Editora, 3ª Edição (6ª Reimpressão), 1987.

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