terça-feira, 24 de março de 2015

Correspondência

I

Prisma, disse a Harmonia, 'dá-me as tintas
com que no íris a luz etérea esgotas.'
Responde o Prisma: 'Dá-me as sete notas
com que os humanos sentimentos pintas'.

Intervém o Perfume: 'Inutilmente
uni-vos-eis sem mim, alma das flores:
das setes notas e das sete cores
guardo a aliança no meu seio ardente.'

II

Há com efeito acordes no perfume,
de intenso colorido harmonioso,
que, no delíquio do supremo gozo,
as sensações universais resume.

Nossos olhos não veem, nossos ouvidos
não escutam; mas a alma inebriada
ouve cantar na abóboda azulada
os cintilantes astros comovidos.

Na embriaguez das flores, quando assoma
entre sonhos a morte, há de ser grato
à alma romper nas sensações do olfato
e a vida evaporar em pleno Aroma!
”  

*Augusto de Lima*
Em “Poesias”, Rio de Janeiro, Editora H. Garnier, 1ª Edição, 1909.

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